sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Felizes para sempre que nada!

Olá.
Já que falamos do Universo dos Contos mais abaixo é sempre bom contextualizar, não é mesmo?

Com a necessidade de identificar a origem dos Contos de fadas por conta do meu projeto de graduação tive de correr atrás dos elementos que constituem os contos. Na verdade, em suas quatro principais roupagens: lendas, mitos, contos de fadas e fábulas.

Contos de Melissa - Essa campanha não
podia estar mais certa.
Mas, neste post nos deteremos nos Contos de Fadas. Vasculhei a internet e achei material bom, mas que por falta de referência confiável não pude citar. Porém, com o lançamento do filme "Alice no País das Maravilhas" de Tim Burton, algumas publicações contemplaram o universo dos contos. Foi assim que cheguei até duas reportagens muito boas da Revista Mundo Estranho e da Leituras da História (esta última é uma revista muito boa mesmo. Achei-a excelente. Afinal, ela também disponibiliza ao final das matérias dicas bibliográficas para quem quiser saber mais.)

Com nossa querida "Chapeuzinho Vermelho" deleitando-se com um grande naco de carne na capa, a Revista Mundo Estranho anuncia a que veio: "A origem sangrenta dos contos de fadas".

De fato. Os Contos de fadas trazem traços de canibalismo, necrofilia e violência. Não tem absolutamente nada da visão idílica de Walt Disney.

Beijo para transformar o sapo em príncipe? Que nada! É só jogar o sapo na parede e pronto! O bonitão se revela!
Gata Borralheira, inocente? Que é isso! Em uma das versões do conto é ela quem prensa a cabeça da madrasta em um baú...
Cinderela, então...Abusada enquanto dormia (para mim, dormir é uma forma de morte.) pelo príncipe/ rei é salva mesmo pelos dois filhos que na busca pelo leite materno acabam encontrando o dedo da mãe e, assim, retiram a farpa responsável pela maldição. ( sabe que ao me dar conta desta versão de Cinderela lembrei-me de Kill Bil. A heroína não entra em coma e é abusada sexualmente? E Bil? O pai da criança que amorosamente é o responsável pela situação da noiva???)

Apenas para citar algumas das versões fascinantes datadas do século 17.

Por que criar histórias tão violentas? Para responder a pergunta o  que se deve fazer é analisar o contexto social em que estas histórias estão inseridas. Segundo a reportagem de André Bozzetto Júnior e Lílian Rodrigues da Cruz em Leituras da História " (...) o conteúdo extremamente explícito dos contos difundidos por meio da oralidade era reflexo do próprio modo de vida dos principais propagadores, que eram os camponeses pobres, sobretudo os franceses." 

Primeiro: a visão sociológica que permite distinguir as diferenças entre as fases da vida humana não existia. Logo, não havia distinção entre o cérebro e as percepções de um adulto para uma criança.
Segundo: as condições precárias, com famílias inteiras dividindo a mesma cama e de onde, com frequência, as crianças podiam observar as atividades sexuais dos pais.
Terceiro: o propósito por trás da ideia de procriar era ter mão de obra para ajudar a família a se sustentar.

Com esse cenário, vamos combinar!, um final feliz é bem difícil de imaginar não é mesmo?

A reportagem de Leituras da História se detem na análise de Chapeuzinho Vermelho.
Para quem não conhece a versão original, a nossa querida menina (ainda sem o famoso capuz) ao visitar a vovó, é recebida pelo lobo com uma refeição composta de carne e vinho que ela come e bebe gostosamente. Na verdade, carne e sangue da doce vovó que foi exterminada pelo animal e que enverga orgulhosamente as suas vestes. Ah, sim. Só para constar: a menina, depois de um verdadeiro streap-tease (esqueça essa história de " Que boca grande você tem, Vovó!") é devorada pelo lobo. E....
E....

FIM.

(É. Cadê o lenhador quando se precisa dele?)

Tudo isso para dizer o seguinte: garotas! Fiquem longe de estranhos e obedeçam os mais velhos!
Acredito que na época deveria ser muito comum os estupros às jovens. Assim, a história funcionaria como um alerta para que as moçoilas ficassem atentas as artimanhas de sedução dos lobos/homens.

Bem, na prática publicitária nós temos diversos elementos dos contos de fadas que, vez ou outra, são trazidos à tona. ( a imagem do post - e que acredito já ter usado em algum outro lugar do Casa Conto - é um exemplo.)
De qualquer forma, acho interessante o final da reportagem de Leituras da História que aqui transcrevo:

" (...) Se levarmos em conta que elas (as crianças) tem acesso a uma enxurrada de informações, oriundas das mais diversas fontes (internet, televisão, revistas, entre outros) e que a estrutura capitalista parece investir cada vez mais na visão da criança enquanto consumidora, e que a mídia, de uma maneira geral, veicula conteúdos de teor sexual com ênfase sem paralelo, não nos parece absurda a ideia de que o conto sobre a meiga garotinha de capuz vermelho e o lobo malicioso esteja esperando para ser escrito novamente."

E foi uma vez.

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