segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

AS MOIRAS FEÉRICAS


Um fio de ouro, 1885. Imagem do portal SRN

“A fada também é uma mulher, o espelho mágico em que ela se mira embelezada.” ( Jules Michelet)

Hoje minhas divagações foram para o lado mais... Doce dos contos.

Já que concebemos os opostos como um pressuposto para o equilíbrio, fiquei imaginando onde entrariam as Fadas.Estes seres benéficos dos contos que se apresentam como ajudantes tão importantes no enredo que, se não fosse por elas, talvez o final feliz não acontecesse. Se você parar para pensar, na maioria das vezes o herói não faz exatamente muita coisa. Ele depende de seus ajudantes mágicos.

Bom, por enquanto estou tentando seguir minha linha de raciocínio tendo como base o nosso caro Michelet. Então, permitam-me usar mais um trecho de seu livro em que ele também tenta explicar quem eram as fadas.

“O que se conta é que, outrora, rainhas dos gauleses, orgulhosas e caprichosas, à chegada do Cristo e de seus apóstolos, mostraram-se impertinentes e lhes deram as costas. Na Bretanha, dançaram nesse momento e nunca mais pararam de dançar (...)”

Segundo Monika Kon Voss em seu artigo “ A tradição feérica e o povo das fadas”: “A palavra inglesa ‘fairy’ [fada] deriva do francês antigo ‘faerie’ e do latim ‘fata’, referindo-se ao destino, no sentido daquilo que nos está fadado.”


Tinker - bem geniosa para uma fadinha!
 As fadas não são exatamente uma versão boa das bruxas. Em certo sentido, são como bruxas. Muitas delas voluntariosas e caprichosas. Um exemplo? Tinker Bell, a Sininho. A fadinha de Peter Pan possui um gênio bem difícil. Ou então, Titânia, a rainha das fadas em “Sonho de uma Noite de Verão” (Midsummer-Night´s Dream de Shakespeare) que enredada no feitiço de Puck e Oberon, passa a amar um burro.

Então, posso dizer com certa segurança que em “Contos de Fada” o elemento “Fada” não está ali para designar os habitantes do mundo feérico, mas sim para designar o destino do protagonista.

As fadas da tradição irlandesa lembram-me muito as Ninfas, as Graças e as Fúrias da mitologia helênica.
Na verdade, ao descobrir o verdadeiro sentido do elemento dentro da composição “Contos de Fadas”, as figuras que me vieram à mente foram as Moiras, também chamadas de Parcas.

As parcas formam um trio feminino responsável pelo fio da vida. São elas que decidem quando e como cada ser humano deve morrer ou/ e nascer.

“Eis as Moiras, com seus respectivos símbolos: Cloto é a que fia, e seu fuso representa o curso da existência. É apresentada como uma mulher jovem e extremamente bela. Láquesis é a que determina o curso do destino. Ela é retratada como uma mulher madura, uma mãe de família. Átropos é a inflexível, a temível anciã que corta o fio da existência com sua tesoura e decreta morte da pessoa. Ela tem a aparência de uma velha feiticeira” (Trecho de uma reportagem especial sobre Mitologia Grega, presente na revista História Viva.)


O destino da personagem está nas mãos dos seus comparsas mágicos. Cinderela, por exemplo, nunca teria ido ao baile se não fosse a interferência de sua madrinha mágica.

Assim, o que não são os contos senão as narrativas que envolvem seres humanos na grande aventura da vida? Nos contos de fadas a linha da vida já foi tecida. E o trabalho de Átropos é suavizado com o “E Foram felizes para sempre” já que nunca contemplamos o envelhecimento das personagens e, claro, a sua morte.

Continuamos as divagações sobre o povo feérico mais tarde.

E foi uma vez!

sábado, 18 de dezembro de 2010

A Feiticeira Iceni.

Falávamos de feiticeiras e bruxas.


Fomos da filha do moleiro até o miraculoso caldeirão de Strega Nona, a avó feiticeira de onde nos detivemos em algumas considerações sobre a cultura celta.

Imagem retirada do blog Janela da Alma.
Os celtas também tem a sua feiticeira, nascida do “tempo da desesperança”. Não da desesperança religiosa imposta pela Idade Média, mas da desesperança imposta pela dominação romana.

Boudicca. Confesso: nunca havia ouvido falar nesta figura. Depois de uma “conversa” casual (coloco entre aspas, porque foi mais uma destas conversas culturais inovadoras para mim.) e de um documentário sobre (History Channel, um destes canais com documentários espetaculares) acho que posso tecer alguns comentários.


Boudicca, a rainha dos Icenos foi casada com o rei Prasutagos.Desta união, Boudicca teve duas filhas. Após a morte de seu marido, ela foi vítima de um ataque romano. Os romanos estavam expandindo o seu império e impondo-se às demais tribos, era o ano de 61 D.C.

Obviamente, negando-se a submeter-se ao jugo romano, Boudicca foi severamente punida. Torturada e espancada teve também de assistir ao suplício das filhas - estupradas por soldados romanos. (Dureza ser mulher nestes tempos, fala sério!)

O que os romanos não esperavam é que Boudicca fosse ressurgir como uma terrível fênix movida pelo desejo de retaliação. E, que, pior! Fosse capaz de mobilizar centenas, milhares de homens celtas contra as legiões romanas.


Imagem do blog "Visão Periférica".
 Na civilização celta homens e mulheres são duas forças opostas, que se complementam. Logo, mulheres liderando ou participando de fronts de batalha não eram nada incomuns.

Mas... Eram para os romanos.

Roma tinha em suas mulheres seres submissos aos deveres do lar. Sua principal atuação acontecia no ambiente doméstico. (não que isso fosse menos terrível. As mulheres romanas também tinham seus estratagemas de dominação, mas não se impunham na esfera masculina. Em Roma, homens e mulheres tinham papéis estabelecidos. As mulheres, em geral, deviam obediência ao chefe da família. Já tínhamos uma sociedade com um contorno mais patriarcal.)

Assim, imagine o quanto poderia ser vergonhoso para um romano além de perder uma batalha, perdê-la para uma mulher!

No blog Janela da alma ( o post sobre a Rainha dá uma boa visão do caráter sociológico da época, recomendo ler. É interessante e completo, caso você queira saber mais sobre Boudicca.) conta que “A grande rainha é descrita usando sua tartan (tecido xadrez típico) e completamente armada, segundo Tácito, “numa aparência quase aterrorizante”.

Achei engraçado quando li sobre o uso do tartan, típico dos escoceses, mas é preciso lembrar que estamos falando da dominação do território que hoje conhecemos como Inglaterra e Escócia. O Blog traz até um adendo sobre o filme “Coração Valente sobre o hábito de pintar-se de azul. A tinta azul que Boudicca e seu exército faziam questão de ostentar em seus corpos antes das batalhas”: “(...) na batalha final, ele (William Wallace), assim como seus homens pintam o rosto e o corpo de azul, isso deve-se a tradição celta que era mais comum entre os Pictos da Escócia.”


(Por falar em pictos...Isso me fez lembrar uma guerreira picta de nome Êtain. Igualmente mortal. Falemos dela em outro momento.)

O final de Boudicca...Até agora me pareceu bastante incerto. É lógico que a retaliação motivada pela Rainha iceni foi ameaçadora para os romanos, mas inevitavelmente, fracassou. O que nos conta o Blog acima é que Boudicca e suas filhas fugiram e sabedoras que o único final que o destino lhes reservava era a morte (e ainda mais brutalidades por parte dos conquistadores.) desejaram exercer a suprema liberdade de pôr fim às próprias vidas, envenenando-se.

A siblia previa a sorte. A feiticeira a faz. É a grande, a verdadeira diferença. Ela evoca, conjura, opera o destino. Não é a Cassandra antiga, que via tão bem o futuro, deplorava-o, mas o aguardava. Esta cria esse futuro.”

E aí está, meu caro Michelet.

Esposa, mãe, guerreira e ... Mais um feiticeira.
Foi uma vez...!


Ps. Mais um blog interessante sobre Boudicca! Trata-se do Visão Periférica.   Traz outras informações interessantes e fotos ilustrativas.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

STREGA NONA - SÉRIE BRUXAS AMIGÁVEIS

Retomando o post anterior... Esta história de La Befana me deixou intrigada.

Strega e seu caldeirão. Ilustração de Tomie de Paola.
Na verdade, minha mãe, uma descendente de família italiana, sempre nos conta sobre sua Nona. Sua avó benzedeira.

Para quem está por dentro das histórias de perseguições as bruxas, entende que benzedeiras e parteiras eram, muitas vezes, condenadas por prática de feitiçaria e magia negra. Quando não comiam crianças e participavam da missa negra, o Sabá.

Toda essa história de bruxas amigáveis me fez lembrar um livro, que uma amiga gentilmente me emprestou, chamado Strega Nona, a avó feiticeira. (Exatamente como a Nona da minha mãe...risos!)

O conto italiano, recontado e ilustrado por Tomie de Paola e lançado pelo programa Crianças Criativas, traz a simpática história de uma avó feiticeira possuidora de um caldeirão mágico. Um caldeirão capaz de cozinhar sozinho um lindo macarrão e só para de produzir o alimento quando Strega pronuncia um encanto. Se for possível fazer uma leitura crítica do livro (infanto-juvenil, diga-se de passagem) é interessante constatar que a bruxa vive em paz com o padre e a igrejinha da vila. O macarrão mágico é oferecido até mesmo ao seminário...!


A fúria da macarronada. Ilustrado por Tomie de Paola.
Bom, a amiga que me emprestou o livro, deixou claro que haviam alguns pontos interessantes entre o livro e a cultura celta. (Ela tem "expertise" no assunto, se é que me entendem!risos!) E não é que é? Eis que encontro um ( ou vários?) ponto de ligação entre Strega Nona e a Mitologia Céltica. Pois é. Mais uma dessas viagens da minha parte . Mas, é verdade. Os caldeirões tem uma importância ímpar para os celtas. Fonte de poder e prosperidade. Enfim, os celtas são (ou foram), sem dúvida, um povo mágico.


Em visita ao site Caldeirão de Ideias de Monika Von Koss (Muito bom, aliás! Monika se dedica ao estudo do sagrado feminino. É bem bacana, com um artigos legais à beça.) encontro a lenda celta de um caldeirão pertencente a Dagda, o Deus bom. “O Caldeirão de Dagda incessantemente produz a comida mais requintada e a bebida mais saborosa. Diz-se que ninguém se afasta insatisfeito deste caldeirão inesgotável e benéfico.”

Como Strega Nona é italiana, a comida mais saborosa não podia deixar de ser macarrão, não é mesmo?

Aí, está pronta a salada (com o perdão do trocadilho!risos). Um caldeirão que jorra macarrão, período medieval, bruxas, italianos e celtas...  Mas é aquilo. Grande parte das nossas histórias de fadas e bruxas vem da mitologia céltica ou nórdica, então...

De qualquer forma, Strega Nona consegue resolver todos os dilemas da história com três doces beijinhos (ah, pois é. O número três também é outra referência à cultura celta, mas falo disso outra hora, em outro post, quem sabe?).Vale à pena a leitura e recomendo visitar o site Crianças Criativas. Tem material didático bem legal.

Bom, é por essas e outras que eu recomendo uma leitura crítica com relação aos livros infantis. Você pode encontrar de tudo. É só ter olhos para ler.

E pensar que tudo isso começou com La Befana!

E foi uma vez...






La Befana - O papai noel de saias e vassouras da Itália.

Imagem de um site de viagem.
Concebendo este post em homenagem ao Mês de Dezembro.


Bem, esta para mim foi uma novidade inusitada. Se você pensava – como eu – que dia das bruxas era só no dia 31 de outubro, pode esquecer.

Fazendo algumas pesquisas habituais, acabei parando em um site bem bacana sobre o Natal. O interessante deste site é que ele traz informações sobre o Natal no mundo todo com curiosidades sobre a festividade. (Site Natal no Mundo.)

E eis que me deparo com a figura de La Befana, o Papai Noel de saias e vassoura da Itália. Pois é.

Ultimamente, tenho procurado expandir minha cultura geral graças a uma amiga norte-americana. É interessante como cada país tem sua particularidade, um traço único que o distingue dos demais.

Por exemplo, no Japão não se comemora o Natal. No mínimo, se acendem os típicos pisca-piscas. E isso, porque os soldados norte-americanos, em decorrência da segunda guerra, trouxeram este hábito.

Mas, voltando aos nossos amigos italianos:

Segundo o Blog “Dentro da Bota”, trata-se de uma personagem que visita as casas nos dias 5 e 6 de janeiro deixando doces (para crianças bem comportadas) ou carvões (para as malcriadas.) nas meias.

A lenda sobre esta mulher está ligada aos três reis magos que durante a peregrinação para encontrar o Messias, decidem descansar em sua casa. Em troca da hospitalidade da boa velhinha, eles a convidam para seguir com eles, mas ela se nega. Depois de algum tempo, ela se arrepende e na esperança de encontrar o menino Jesus sai distribuindo doces em todas as casas em que houvesse uma criança.

Hábito bem diferente, não é mesmo?

Quem diria...Papai Noel também tem o seu lado feminino...risos...!

E foi uma vez...

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

A filha do Moleiro, uma Feiticeira.

Como vão, visitantes do Casa Conto?


Depois de algum tempo de descanso, eis que a “boa filha a Casa retorna!” risos!


Figura retirada do blog Fadas e Duendes.
 Bem, depois deste longo tempo sem postar (Também estava envolvida em gerar conteúdo para meu outro Blog.), mas ainda mergulhada em estudos, hoje desejo compartilhar mais um pensamento interessante sobre o Universo dos Contos.

Como sabem através de alguns post´s atrás estava entretida na leitura de Jules Michelet. O que me permitiu algumas reflexões sobre um outro conto, que embora não abordado pelo autor, me veio à mente ao ler o capítulo intitulado “Pacto”.

Trata-se do Conto Rumpelstiltiskin dos Irmãos Grimm, presente no livro “Contos para infância e para o Lar.” Inclusive, a nova animação de Shrek, a figura do duendezinho maléfico é trazida à tona como o causador de uma verdadeira reviravolta na vida do Ogro. Pontos para a Gansa Fifi, uma sátira impagável que faz referência ao livro de Charles Perrault – Contos da Mamãe Gansa. Fifi, a gansa, tem dois olhos vermelhos demoníacos e vamos deixar bem claro que...De Mamãe Gansa não tem absolutamente nada!


Para quem não conhece a história, em linhas gerais, trata-se de um moleiro canastrão que mente ao Rei alardeando que sua filha seria capaz de transformar feno em ouro. A jovem é, então, levada ao palácio e trancada em um quarto cheio do material. Ela deve transformar feno em ouro para preservar a própria vida.


Releitura moderna do Conto em Shrek 4.
 É então que a jovem camponesa recebe a visita de um serzinho que promete ajudá-la, caso ela lhe dê algo em troca pelo serviço.

E aí se fixa o “Pacto diabólico, do hediondo tratado em que, pelo ganho ínfimo de um dia, a alma se vende às torturas eternas” (MICHELET, 1992).


Ouso dizer que o duende em si não é ruim. Ele apenas trabalha por trocas. Apenas isso. O que motiva a desgraça da pobre camponesa são justamente os homens que a rodeiam. Primeiro: o próprio pai. Segundo: o rei e futuro esposo. E ambos motivados pela ganância que a forçam a dar o primeiro filho como pagamento pela última noite de trabalho do duende.

“(...) Ao aparecer, a Feiticeira não tem pai, nem mãe, nem filho, nem esposo, nem família. É um monstro, um aerólito, vindo não se sabe de onde. Quem ousaria, meu Deus, aproximar-se dela?”

Obviamente, apenas o duende. Já que a mulher é rechaçada, submetida ao poder patriarcal. O que comprova que a feiticeira nasce, conforme Michelet, do “Tempo da desesperança.”

“- Ah, então estás aí, finalmente... Não vieste de bom grado. E não terias vindo se não tivesses chegado ao fundo da necessidade mais profunda... Precisaste, orgulhosa, correr sob o chicote, gritar e pedir clemência, rejeitada por teu marido.”


Quem diria? A pobre filha do moleiro transforma-se em uma Feiticeira para salvar-se!

Para mim, este conto deveria entrar no prefácio da obra de Michelet. Injustiça, hein!risos...

E foi uma vez...